sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Manifesto Infantil

"A palavra “infância” vem do latim infantìa/ae que significa tanto ainda não falar como infância, o que é novo, novidade; do latim infans/ántis, que não fala, criança. A aquisição da linguagem é, portanto, a passagem do infans, aquele que não fala, para sujeito falante". (IN: A infância e a aquisição de linguagem - Maria Fausta Pereira de Castro)

Crianças do mundo:
comecemos a chorar.
Nasçamos com o grito
do aflito despertar das luzes do parto.
Primeiro constato da frieza do mundo.
Preparo do corpo para o choro profundo.
Choremos segundo e estridente:
fome de leite.
Até que os pais todos estejam presentes.
E o ardido incomode os vizinhos dormentes.
E qualquer reticente, nao vendo outro jeito,
Abra seu peito para nos amamentar.
Enxuguemos as palpebras
apenas por pausa
para digestao.
Depois?
Choremos por pao.
Feijao.
Macarrao.
Sejamos crianças mimadas.
Choremos nas vitrines, nas lojas, nas calçadas
Façamos encontrar as nossas lagrimas
Nas aguas das torneiras
Em que lavam-se as maos.
Choremos de medo da escuridao.
Choremos por falta de educaçao.
Choremos a cada nao.
Choremos o choro doído
por nossos tombos (no patio),
por tantos insultos (na escola).
Choremos até a hora
em que a fala de adultos
nao mais tenha sentido.
Crianças do mundo:
Entreguemos sem medo
os nossos soluços.
Esperneemos a dança
de nossos impulsos.
Façamos bom uso de nossa linguagem
Tanto dita contraria às falas vigentes.
Choremos insolentemente, crianças.
Recuperemos da infancia
a primaria e unica instancia
em que ainda se entendem
todas as gentes.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

(Deixe seu recado)

Caixa:
Postal.
Vocal.
Virtual.

Nada
En-caixa.

Absolutamente
n-i-n-g-u-é-m
Me encontra.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dor-sal

Dores na coluna.
Alma torta torturando
minha espinha.

Dores na coluna.
Peso que me pende
ironicamente
para frente.

Dores na coluna.
Recai sobre a nuca
os fardos que nunca
serao diferentes.

Dores na coluna.
Verso-terapia para alinhar
minhas posturas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

guerra e paz:

homem faz. volta atras. quer mais. dinheiro. veneno. cinzeiro. proibido. poluido. destruido. descartado. reciclado. outra forma. mesma fôrma. mesma gente. de(-)mente. que mente. progresso. perverso. percalço. no bolso. do bobo. de novo. de nada. obrigado. pela força. do habito. da(s) garra(s). amarra-do cabo. de luz. conduz. confere. compara. contorna. retorna. ao mesmo. seu peso. surpreso. de presa.

Re(feiçao)

sejam os olhos vivos.
sejam os olhos vidros.
transparencia das janelas de dentro
interpelando pelas imagens de fora
e das paisagem que surgem do encontro
sejam os olhos ponto
das luzes que refletem furtacor.
sim! furtem os olhos a cor.
desses falsos pintores
de camadas de mao-unica
e distribuam-nas às crianças
nas danças de roda
nas tardes de parque
nos dias de piscina.
sejam os olhos a vitamina
de todos os tipos prescritos
pelos mais famosos doutores
que pretendem aliviar
(do outros) as dores
sem jamais receitar a si mesmos
os nutrientes das boas conversas.
sejam os olhos promessa
sem pressa
parados no ar
paraindo o pensar
nos mais longiquos horizontes.
sejam os olhos as pontes
do invisivel, do intocavel, do inatingivel.
sejam os olhos o fusivel
que acende as luzes do fim.
olhem-me: assim.
sem esse marasmo opaco.
sejam os olhos o prato
em que serve-se quente
a paixao de existir.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Solitudes

I .
Falar sozinha
é trazer a lingua
do meio do peito.
E no meio do aperto
(do metro lotado)
(do supermercado)
(da fila do caixa ao lado)
Ausentar-se do centro
da atençao comedida
E expor sem medida
aos olhares dos outros
que sabe tao pouco
quem nao escuta
a voz da alma.

II .
Cantar sozinha
nao é nenhum
trauma de infancia
(ou sinal de inconstancia)
(de problema de ouvido)
(de falta de amigo).
Tralalar por ai
batucando nos dedos
é contar os segredos
guardados consigo
para ajudar os sentidos
a encontrar sua dança.

III .
Chorar sozinha
é uma chuva so minha
que nao respinga
em ninguém.
(No caminho do trem)
(do amor que nao vem)
(da falta do bem)
Faz molhar toda a rua
E a barra da roupa.
Deixa a tristeza solta
para ir mais além.
Chorar sozinha
é lembrar da sombrinha
nos dias de sol.


* Ja que, pelo visto, ando falando sozinha até nesse blog! rs

sábado, 25 de outubro de 2008

801S

Ato I

Voce e eu,
nada de à primeira vista.
Nem mesmo uma pista
De trejeitos de amor.
Eu te encontro
(nem um pouco pronto)
no sufoco dos dias corridos
E decido assim, comigo,
Sem mais
saber ao certo
O que eu busco.

Ato II

Voce e eu:
começo brusco.
Com tanta coisa
Acumulada no peito,
De olhos fechados
(Ofuscando defeitos)
Eu me esparramo
(como um pano!)
Sobre ti.

Ato III

Voce e eu:
tudo o que de pronto
eu nao vi.
Vou conhecendo
Pouco a pouco
Seus pedaços
Ocupando cada seu
Pequeno espaço.
Vou tocando
Cada canto
Que ha ali.

Ato IV

Voce e eu:
Descobrindo maneiras.
Removendo poeiras.
Varrendo a sujeira
(para longe do tapete!).
Voce e eu redecorando
Os nossos modos.

Ato Final

Voce e eu:
Formado o par.
Voce é meu e eu, enfim,
Ouso chamar-te
De meu lar.



* Sinto pela falta dos acentos!
E pelo trocadilho sem graça... rs.
Queria é saber se alguém ainda passa por aqui e apresentar, aos resistentes, minha nova casinha lyonais!
* Bom... a foto nao carrega de modo algum! Fica apenas o texto por enquanto!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Skrik (II)

Na denúnica do escandalo,
A voz do grito.
Na calada da noite,
O grito da voz.
Na recusa ao imposto,
A voz do grito.
Na recusa ao diálogo,
O grito da voz.
Na certeza dos fins,
A voz do grito.
No entrave ao caminho,
O grito da voz.

Pelos que anseiam e se somam,
Pelos que temem e distorcem,
Pela inutilidade do nos fazer calar:
Há voz em nosso grito.

Pelo sufoco da verdade não dita,
Pela inconfiabilidade na esperança oferecida,
Pela angústia de sermos a contra-dição
desse pobre cenário:
Há grito em nossa voz.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Dois a dois

Caminha menina a procurar
Nos sorrisos, encontros
Na fuga aos pensamentos prontos
O compasso de seu andar.

Caminha menina a percorrer,
Novos espaços e cores
Velhas cantigas e amores
Traçados de seu viver.

Caminha menina a florir.
No virar de sua idade
Transparece em intensidade
A importância do existir.

domingo, 31 de agosto de 2008

Trânsito

Ausência de vagas na rua
Deixando nua
Toda minha verdade:
O que me apavora?!
É não encontrar um lugar.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Pequena Fábula dos Caminhos sem Fim



O cenário, no início, recheava-se de pinheiros.
Plantação quadriculada e articulada aos raios de sol, os pinheiros eram, como ela, arraigados à terra. E fiéis à raízes e troncos, cresciam ambos – verde-menina – com a certa alegria de quem caminha rumo ao céu.
Sol e dias e frio e chuva e calor e o homem.
O desgaste da natureza e interesses (des)umanos podaram, certo dia, todos os pinheiros. Sem os pinheiros, o solo restou só e o vento soprou apenas o vazio.
Em não havendo pinheiros, acabou-se cheiro e sombra.
Na falta do refúgio, afastou-se de si mesma, chorou um mar de tristes ondas.
Mas sabedoria de mãe é colo e solo só é ainda terra firme.
Pois que na escuridão da noite e na secura do terreno órfão, ventos leves e brisas trouxeram sementes novas e pequeninas.
E silenciosamente misturadas às lágrimas da menina, floresceram um novo jardim de multicores.

sábado, 23 de agosto de 2008

Écran

Uma tela escura.
Uma figura bate em cada canto.
Nunca pára.
Não acha seu caminho.

Eu começo a desabar.
Não sinto o chão.
Não chego a lugar algum.

Tudo o que parece não é.
(Ou que enxergo o que nem mesmo parece ser?)
Enquanto um vazio grita por dentro
Espero pelo próximo minuto,
pela próxima hora,
o outro dia.

Descobrirei nesses instantes alguma verdade?

(Existe acaso
algo para ver?
algo para dar?
alguma idade?)

A figura em movimento multidimensional.
Teria ela alguma escolha?
Há sentido em parar um dia?

Quando uma nova perspectiva abre-se a meus olhos:
Já estaria completamente hipnotizada
Ou teria então ganhado asas!

Uma leveza toma conta de meu corpo.
Não preciso mais do chão.
Não anseio encontrar um lugar.
Desconheço a resposta.
Quisera apenas flutuar para sempre!
Eternizar-me nessa queda para cima.
Onde tudo de fato não é o que parece.
E não precisa ser.

No entanto de um barulho
retorno à dimensão inicial.

E a figura permanece ali.
Quatro lados, aprisionada.
Não espera o próximo minuto,
nem hora,
nem dia.

Sobrevive.

Quem foi então
o ladrão de minhas asas?
Quem me roubou o vôo
sem me levar o vazio?
Não sou eu
quem deveria estar
atrás dessas grades.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Propósito

O pensamento torto.
O segredo do corpo.
O falar tão pouco.


Eu vou (te deixar) louco.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Bancária

Sentada num banco de praça.
Camisa de um branco sem graça.
A personagem que banco realça:
Tão falsa a rotina em um banco!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Pronome Pessoal que Cai do Teto

I try.
I don't fly.
I cry.

Que viver é assim,
tão difícil!,
Que (em inglês)
até o eu é ai!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

domingo, 3 de agosto de 2008

Grafites Guardadas

Grafites guardadas não são tinta que resseca.
Grafites passadas ressurgem em outras paradas
Estranham a forma das páginas
Perguntam por velhas mágoas
E tornam a escrever.

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Grafites guardadas não são dessa tinta azulada
Que se dilue no curso das águas do tempo.
Grafites passadas, ainda que quebradas,
Nunca têm o intento
De se deixarem apagar.

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Grafites guardadas não são como tinta de pena.
Grafites passadas não têm tema de coloração variada
Jamais aceitam serem tampadas
Nem mais aprenderão
De serem sintéticas.

sábado, 26 de julho de 2008

Tatoagem

Quis ser madeira.
E conhecer por inteira
A acústica da alma.
Ser viola, batuque, piano.
Quis ser pano.
Posto em posto alto
Nos dias de festa.
Quis hastear-se sem pressa
Em seu hino de fala falha.
Quis ser palha.
E queimar em migalhas
Tanta comodidade chata.
Quis ser lata.
Quis ser prata.
Quis ser ouro.
Quis ser estouro de brilho
E transtornar o fascínio
Com seu grito.
Quis ser granito e mármore.
Quis ser concreto.
Demolir traços retos
Reerguer-se em novo passo.
Quis ser aço.
Que se molda com calor.
Que segura o que for.
Quis ser dura
Como a textura
Na parede do quarto.
Quis reunir seus cacos.
E poder ser fraca.
Quis ser vidro.
Quis ser viva.
Como quem acha
Que vale a pena.
Quis ser borracha.
Quis ser plástica.
Quis ser cimento.
Quis saber assentar
Cada momento
Com que se constrói
O alicerce da vida.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Fausse-couche

Eu receio tua tamanha experiência.
Eu me escondo dessa tua intensa essência
Que transparece em cada nota de você.
E eu me seguro ao hesitar por sua pressa.
Eu não entrego minha defesa, já confessa.
Eu já sou prática nessas táticas de temer.
E então quando me treme todo o corpo,
Eu te rebato e me afasto, pouco a pouco.
Eu mesma mato qualquer possível vir a ser.

domingo, 20 de julho de 2008

Cadeira de balanço

Gingado da menina
Que balança, feminina,
Desconstrói com encanto
a Terra inteira.

Para um lado e para o outro,
Deixa tonto todo o povo,
Embalando no compasso
suas madeixas.

É beleza e formosura
E esbanja compostura,
Quando entrega pra cadência
suas cadeiras.

domingo, 13 de julho de 2008

Empacotado

Pé no sapato.
Peixe no aquário.
Roupa no armário.
Lâmpada no lustre.
Perfume no frasco.
Caneta no estojo.
Peito no bojo.
Fruta na casca.
Batom na bolsa.
Pérola na concha.
Bolacha no pacote.
Tesouro no pote:
Não brilha.
Não trilha.
Não rima.
Não vive.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Arrabalde*




Arre!,
que a vida aqui
se faz nos baldes!
Do sabão doméstico da faxina.
Da birita entorpecente das esquinas.
Dos meninos e meninas
que esbaldam
alegria
espalhando
tanta água
pela rua!



* Escrito a partir do poema "Arrabalde", de Berimba de Jesus.
(www.poesiamaloqueirista.blogspot.com)
(não tem o poema, mas fala sobre o movimento! rs)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Traços em trapos

Trançando palavras em traços,
Traduzo o espaço
Dos sentimentos trancados
Pelos transtornos do tempo.
Traçando palavras às traças,
Atraso o lamento
E transporto o intento
(para dias futuros)
De quebrar as vidraças.
Transpor esses muros.
Trazer novo rumo.
Transbordando sentidos em taças,
Transmito o que passa
Em palavras sem medo.

domingo, 6 de julho de 2008

Ver-te aguado

Meus olhos, de águas transbordantes,
Temiam afogar-se em si.
Meus olhos, de mareado bocejante,
Desistiam de procurar-te aqui.
Meus olhos, de esverdeado desaguante,
Descobriram em ti a lágrima dos amantes
Que não sabe se chora ou se ri.

domingo, 29 de junho de 2008

Rossa Nova *

I - Sou luta
Pelo espaço do chão
Invasão
De passos suspensos
Sob areia movediça
Sou por justiça:
Homem da guerra da terra.


II - Sou violência
Da cidade
Simplicidade
Em meio à vaidade
Das gentes
Sou sobrevivente:
Homem da terra da guerra.


III- Sou balançado
Do vento aflito
Conflito
do sentir
Irrestrito
Sou sem palmas:
Homem da guerra da alma.


__________________________


Canto do Canavial


Canto do canavial
Feito dos acordes
do acordar matinal
Em dias de sol a pino.
Canto de menino que ressoa:
Farfalhar de folhas.
Batuque da terra batida.
Solo do solo só.
Canto sem dó.
Que falta-lhe
na escala
As notas de fim e começo
Canto em tropeços
Ao som dos metais
das facas
do corte
da mata.


* Textos escritos a partir das músicas "Visão" (I) e "O Canto do Canavial" (II), da banda Rossa Nova (que, por sinal, produz um ritmo super interessante e são muitos simpáticos!). Para quem quiser conferir: http://www.rossanova.com.br/ .

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Mulher rendada

Alfinetam-me a alma
Essas dores pequenas
Das costuras derradeiras
Dos costumes a moldar.
Não fosse o alinhavo
Das agulhas rendeiras
Seria eu
(livre das penas)
Um pedaço de seda
Flutuando no ar!

domingo, 22 de junho de 2008

Passagem

Os pássaros

(depois que engoliram o ar!)

deixaram de passear aos passos

e passaram a voar!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sarando

Dizia o poeta sobre o frio
na voz suave de uma dama.
E o sopro doce que do vento emana,
de menina-boneca, cantarilhado vinha.
Encontra-me sozinha
a fazer uma prece
por ares mais quentes...
É que em meio a tanta gente!,
Minha alma inibida se encolhe
E sente, de fato, tanto frio!
Faz-se alma vagueando pelo vazio:
Pulmão, coração, abdômen.
Todo o caminho da fome.
Chega às pernas, canelas.
Esconde-se do rosto.
E somente quando é posto
novo acorde
na viola,
Ela enfim, por um pouco, desenrola
e se atreve a batucar por entre os dedos.
Mas cedo cessa
sua pequena aventura!
Alma retoma sua defesa e compostura
Vai à coluna, entortá-la um pouco mais!
E ora cruza-se nos braços,
Ora põe as mãos em laço
Horas no espaço, protegendo,
É só o que faz!

Mas é então que a luz de tudo se apaga...
E um brilho, de repente, pela sala:
um candeeiro, sorrateiro, que a chama!


E inflamado um calor que alumia,
Essa tal alma até entanto arredia,
Se inebria pelo vermelho destemor!
Que o fogo logo impõe-se
(com louvor!),
E não contente em ter na luz a sua graça
O mesmo brio, tão confiante, se transpassa,
Espalha em fumaça se exibindo em seu ardor!
Assim em pouco a velha alma, hesitante,
Vai-se envolvida pelo tal tremor dançante!,
E esquecendo, pelo instante, seu disfarce,
Deixa entrever por um momento sua face,
Por fim desfaz-se
na coragem
de um sorriso.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Questão de gênero

O mar-é.
Conforme o caminho da lua.
Nova.
Crescente.
Toda sua!
E minguante.
A maré vazante
e o mar.
Gênero variante
de a-mar.

sábado, 14 de junho de 2008

VLADO *

Eletrochoque
Na testa
Na fresta
Do ouvido
E o grito
Da entranha
Emaranhado
Da dor
Presa
Na teia
Do DOP
Do DOI
Dá dó
Dá dado
Dá número
Errado
Azar
Azedo
Exílio
Pra fora
do trilho
Na rua
Procura
Por si:
Tortura.

* À Vladimir Herzog, cineasta e jornalista brasileiro torturado e morto durante a ditadura militar. À todos os demais que, de alguma forma, tiveram a alma comprimida pela brutalidade do período. E àqueles que, ainda hoje, também sofrem com a tortura velada dos eletrochoques das barbáries da vida cotidiana.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia dos abraçados

Eu? Preciso dos braços.
Eu preciso de braços e abraços
Que enlaçam a alma.
Que transmitem calma.
Que vertem o choro.
Eu preciso de braços,
mais que o estouro de beijos.
Eu ensejo segurar os pulsos.
Sentir o fluxo que move a mão.
Eu preciso não, de conveniências.
Eu preciso transpor a essência
(e muito mais que sobrepor decências),
Eu preciso do contato que nenhum tato
jamais alcança.
Eu preciso dos risos leves de infância.
Da tranqüilidade imensa e mansa
da presença ao lado.
A serenidade dos olhos fechados.
A inquietude nos olhos abertos.
Eu preciso, decerto, dos braços
para chegar a enxergar os traços
daquilo que diz-se eu te amo.

domingo, 8 de junho de 2008

Se tocar...

Toque! Toque! Toque!
Ela olha o telefone
E torce.
Coração retorcido
de tanta espera.
Ela supera, sempre.
Mas suspira
a ausência.
E respira,
intensa.
Que na dormência
Dos fins de tarde
A alma alarga,
aperta tanto!
E ela aguarda.
E ela torce.
Ela guarda.
Toque. toque. toque.
Toc. toc. toc.
Seu toque.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

As
lágrimas
de alegria
não derramam.
Elas beiram os cílios.
Beijam as pálpebras.
Brilham os olhos.
E vão regar
a alma.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

(v)espera

Minhas semanas passaram a ter
sete dias.
cento e sessenta e oito horas.
dez mil e oitenta minutos.
além de seis noites de sonho.
e uma madrugada em claro.
toda semana agora
tem véspera de feriado.
de festa de aniversário.
de passeio da escola.
minha semana demora.
mas o dia chega.

domingo, 1 de junho de 2008

Musicalidades

Perdi-me em meus compassos.
Eu não sei mais me compor.

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Minha voz é grave e baixa.
Minha voz disfarça
o tom agudo da minha alma.

________________________

Melo-dias sem Sol
Sempre fazem-me chorar.

________________________

Eu sou o acordo
do alegre e triste
dos acordes em Mi Menor.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Vida em Volts

ela estuda e trabalha e estuda e namora e trabalha e se atrapalha – às vezes – mas não pode. ela sacode o fôlego. chacoalha o ânimo. segue a vida. tão corrida, é verdade. mas a idade é para isso e é preciso. ela não se intimida. não pede guarida. não perde compromisso. ela é um preciosíssimo diamante. ela é o dia a tarde a noite e amante: o exemplo do arranjo do tempo. não pára um momento. que seu traçado é em frente. freneticamente. ela corre. corre-corre. pega-pega. esconde-esconde. tudo aos montes. tudo em dobro. só que ela dá conta. ela faz de conta. ela está sempre pronta. num minuto. ela vai dominar o mundo


de repente


ela

se

des - cobre

:gente!


E ela sente.
Ela só-mente.
Ela está vazia.


Ela encosta na pia.
Olha no espelho.
Ela queria ser poesia.
Fantasia.
Ela já tem nome de sereia!
Ela queria pisar areia
E deixar-se afundar.
Ela precisa viajar.
Pra longe.
Ouro preto.
Ouro perto.
Ouro certo:
Ela quer conhecer Minas
- ela é menina
desses sonhos secretos.
E ela é tão bela
sendo aquela
a que ela vê!
Ela é Bela.
Cinderela.
É princesa.
Ela não tem
nenhuma certeza
- ela se interessa
pelas coisas que ardem.
Ela vai abandonar a tarde.
E espreguiçar-se no sofá.
Ligar pras amigas.
Fazer comida.
Ela nunca gostou
de tanta pressa.
Ela vai desistir
da promessa.
e comer chocolate.
e cortar o cabelo.
e amar sem receio
e com tudo.
Ela decidiu que começa
com esses passos miúdos.
Ela vai viver a fundo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Pesadedo

Isso não é apenas por seus dedos!,
isso é tudo mais que o que significa!
Isso é a prova de que a gente não se comunica.
Vocês não percebem?!
Eu não falo em abrir a boca.
A gente abre tantas vezes a boca!
A gente, simplesmente, não se comunica
!”

Foi preciso o choro em um sonho temido.
Foi preciso o desatino das palavras.
Foi preciso o desespero das lágrimas
escondidas em um subconsciente distante,
E o grito sufocante da alma exilada fez-se ouvir ao longe.
Acordei com os olhos molhados e os sentidos mareados em tristeza.
Fui ter primeiro com a certeza dos dedos.
Um, dois, três, quatro, cinco...
Meus e dela, todos ali.
Então, na existência confusa do acordar-dormente,
em que não se distinguem os fatos e os fakes,
lembrei-me do horror de uma faca - e tive medo por nós duas.
Pelas minhas palavras tão verdadeiramente duras.
Pela tua pronta concordância ao meu pranto angustiado.
Pela distância que nos joga ao lado quando deveríamos estar à frente.
Eu, covardemente, escondo-me nessas grafites opacas.
Tu? Te escondes na sombra do nada e pensas sozinha.
Mas o dedo de que te valeste em sonho, metade minha!,
Servia justamente para isto...
Aponta o erro. Repara o medo. Afasta o risco.
Indica o estrago do limite dessas inconformidades veladas.
Acordei a madrugada com o amargo de uma tal cena doentia,
em que perdias, tu, um dedo;
em que logo cedo, pedia eu mais vida.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Espiando sem janela

Sou nessas coisas pequenas.
Sou em palavras nem sempre serenas
de incertezas e inseguranças.
Sou o misto de fada e criança
Que esperando espia a vida na sacada.
Pois janela voltada, pra rua?, já não tem...
E no entanto o mesmo encanto me convém
- que ser sua, ou de mais alguém -
é apenas uma questão de tempo.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

SOS-pirando

Largo suspiro,
Expesso ar!,
Diz-se daquilo
Que não se expressa
do pensar.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Parlatório

Voz que fala.
Voz não escuta.
Vós fazeis muda
toda forma de expresão!
Que falar não é
mais, senão,
inútil criação
desses sons anasalados.
Que se houve, todo lado!
E não se encaixa.
E não se entende.
Pois que entre gente
faz-se preciso
outros sinais!
E um som capaz
de transmitir
o sentimento,
Sem tal barulho
nem lamúria,
nem tormento,
Da falação
em que a palavra
se desfaz.

domingo, 18 de maio de 2008

Bem me quer mal me quer



Amor perfeito:
Trejeito antagônico de ser.
Num mundo quadrado de versos contados,
É com petalas ímpar que dá bem-querer.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

In memoriam

Perdoem-me se saí naquele momento
correndo pelas ruas, como faltasse qualquer respeito,
sem intento nem mesmo tempo de me explicar!
É que uma idéia veio-me tão pronta
que fez-me assim, feito tonta,
perder postura e buscar à Lua algum papel!
E como, vida!, não houvesse nada em vista,
apanhei logo o pincel de algum artista!,
Pus-me aflita a golpear o imenso céu!
Que para não me escapasse aquela cena,
tingi palavras, pintei fonemas,
borrei as telas e os morfemas,
fiz das estrelas um cinema em aquarela!
Foi quando exausta vi as horas
lembrei, meu Deus!, hei de ir agora!
Voltar pra terra que se encerra em seu girar.
Já indo embora, gotejante,
olhei ao alto e num instante,
guardei em memória a tal história de um luar!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

06:00 d'amanhã

Tic-tac-tic-tac-tanto!
Desperta dor e medo.

Tic-tac-tic-tac-tanto!
Despertador do espanto.

Tic-tac-tic-taqueando!

Idéias agora são minutos.
Silêncio calado gasta as horas.
Espera-me um tempo senhora:
Futuro carregado de passado.

domingo, 11 de maio de 2008

Portas fechadas

Por favor, dêem-me um pouco de silêncio!
Deixem-me sozinha enquanto penso, que eu já não agüento mais nada!
Estou cheia de suas discussões mal-acabadas, seus sorrisos forçados e seus assuntos supérfluos.
E também não quero mais por perto esse amor sem chama.
Que apenas dorme a mesma cama e diz que se ama como fim de conversa.
Essa inércia me cansa e o marasmo me consome!
Eu ainda tenho fome dos sentimentos intensos e avassaladores.
E essa existência sem cores tem-me deixado enjoada!
Aborrecem-me tais horas reguladas pela previsão do tempo e o jornal das oito.
Eu não quero sua pena da favela, nem os resumos de novela ou da vida dos outros.
É que eu já não suporto mais fachadas.
Eu não tolero tanto egoísmo.
O que eu preciso é dar vida aos sentidos e traduzi-los em palavras.
Então, por favor, respeitem o que diz essa porta fechada.
E dêem-me um pouco de silêncio, eu insisto.

sábado, 10 de maio de 2008

Vanguarda

Seria proposta injusta acusar aquele que não sabia pelas tristes implicações de sua ignorância? Seria mérito indevido aplaudir aquele que não sabia pelas felizes derivações de sua experiência?
Qual linha tênue a distanciar o julgamento dos efeitos do acaso!
Ora gênio, ora louco, ora culpado.
Do mesmo crime, todos passíveis de serem acusados: superando o esperado, não puderam antever, insistiram em sonhar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

À demain... (II)

Digo hoje algumas verdades!
Sem rima.
Sem métrica.
Ao acaso das regras de uma poética
que nunca de fato compreendi!
Faço logo hoje
muitas dessas
frases frias
sem contornos.
Pois se existe até
dicionário de sinônimos!
Como é possivel
não permitir comparação?!
Escrevo então
páginas novas
em minha gramática.
Declarando
erro básico:
discurso sem prática.
E, afastando
todo medo
e qualquer lástima,
Resolvo
enfim!, a problemática
da diferença
entre o amém
e o seja assim.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Perene Incompleto

Somos o insatifeito.
Peito sem jeito, perene incompleto.
Somos o inquieto.
Desafetos das notas retas
e das quebradas.
Não há entoada que nos satisfaça.
Somos o in-verso da graça.
E do que se fez.
O vocês da vez.
Em nossa voz.
Depois do pó do pós:
Nós.

domingo, 27 de abril de 2008

Corda bamba

Pensa.
Suspensa.
Não pensa.

Sustenta-se apenas sobre si mesma.
Percorre o fino fio da certeza.
Imenso espaço aberto.

Arrisca passo incerto.

Ergue os braços.
Gira o tronco.

Encontro.
Com o novo,
Com o simples,
Com o tonto.

Cabeça erguida
Olha ao longe:
Horizonte-linha.

Equilibrista
quando caminha,
Fixa um ponto.
Mantém-se em pé.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Vide verso

Todo poema é só metade.
___________________.
Não diz de tudo
____________
Aquilo que se sente.
_______________.
Cada linha primeira
_______________
Esconde a segunda,
______________,
Muito mais verdadeira,
_________________,
Ao dispor do leitor
______________
Que se aventura.
____________.
Todo poema é casca
_______________
de fruta madura.
____________.
Céu nublado.
__________.
Corpo de menina.
_____________.
Pé de bailarina.
____________.
O que não está na rima,
_________________,
Está na sombra
___________
do verso
_______
da folha.
_______.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Peixe grande

Aprendi deste momento único
A experiência sensível do existir.
Um flutuar distante e ausente.
O estágio quase dormente
em que a alma passeia.
Dispersa-se na areia.
Encontra outro porto.
Meu corpo, absorto
não mais doeu daquela dor,
dos troncos das árvores,
em meio ao vendaval.
Pois que livrou-se das raízes.
Em sendo totalmente livre,
Galhos eram asas e suas folhas
Penas pequenas de suave deslize.
Aprendi deste momento único:
Sobrevive quem sabe ir embora.
Pássaro não canta em gaiola.
Peixe grande visita a orla
Mas segue a vida em alto mar.
Pelo momento deixo estar.
Logo liberto-me das âncoras de agora.
Despejo meus sentidos mundo afora.
E quando enfim conhecer a calma
Resgato a semente da alma,
E apresento-lhe um novo lar.

domingo, 20 de abril de 2008

Mãos lavadas

- Aqui, do seu lado!
(Grito abafado de uma alma sem lar).

- Dá um trocado?
(Vidro fechado também faz sufocar).

- Me compra um pão?
- Deixa eu ver sua mão?

Não enxerga atenção.

Não lê arroz e feijão.

Só uma linha invisível.
Contramão.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Imperativo: Contra-ataque

Eu sem graça.
Eu me disfarço.
Seu cabelos cacheados
Chacoalhando
Com a chuva.
Minha palavra muda.
Sua barba por fazer.
Eu vejo você:
Esperança é silêncio.
É seu olhar intenso
A tentar me descobrir.
Descobre.
Encobre.
Me pergunta, é mais fácil.
O meu passo é profundo
Mas é pequeno.
Medroso.
Ansioso.
Tudo ao mesmo tempo.
O que eu entendo é chão.
Você é paixão.
Eu não estou acostumada.
Minha defesa é fachada.
Amo-te retraída.
Amo-me desfalcada.

sábado, 5 de abril de 2008

Matiné

Eu invento roteiros, troco cenários, eu adiciono personagens.
Eu insisto nas páginas de um romance já gasto em seu não-existir.
Somos novela estrangeira dublada.
Ou uma comédia romântica mal-acabada e sem final feliz.
Somos uma história que o autor não quis e deixou para trás.

Eu não sou mais
que apenas cliché.

Eu atuo em cenas que você não vê.
Eu escuto trilhas que ninguém mais sente.
Eu sou a fala versada que você não entende.

Faz falta entre a gente a legenda da alma.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Cosmopolita

Lâmpada quer ser estrela.
Iceberg é geladeira.
Condomínio é cordilheira.
Ventilador é furacão.

Chaminé quer ser vulcão.

Nuvem de poluição.

E carros com muitos cavalos.
E a água escorendo nos ralos,
É chuva infiltrando no chão.

Brincadeira cosmopolita.
Apenas imita.
Nenhuma invenção.

domingo, 30 de março de 2008

Aficionada

Escancarados meus sentidos
Restrinjo, incerto o tempo, vossos ouvidos
Ao enunciado de palavras mal-escritas.
Escondo-me em versos sobre a vida.
Anuncio uma esperança renascida.
Disfarço egoísmos impiedosos.

E já que querem estes versos tortuosos
Declamando sobre coisas tanto mais belas!,
Deitarei ao encosto minhas mazelas
Falsearei logo um soneto de amor.
Que brinde risos e flores, chocolates e cores,
(Seja acaso tudo isso e o que mais for)!

Já me desculpo, entretanto,
Se escapando-me o pranto,
Perderem-se entre as linhas minhas mãos.
É que a grafite com que escrevo
Não se acostuma com o erro
De que poesia com mentira é ficção.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Passa-anel

Passa um, passa dois, passa três.
Segura bem firme entre a palma das mãos.
Deixa em um, retira depois, pensa outra vez.
Descuido e cansaço derrubam no chão.
Escolhe um, passos a dois, serão três.
Coração de menina vestido de véu,
Inventa que amar
é brincar passa-anel.

sábado, 22 de março de 2008

"Le rouge et le noir"



Tenho mãos de grafite:
Coloração preto-noite.
(Se vivesse no século dezoito
seriam mãos preto-carvão)
Fugi por um instante da escuridão
e acordei com as unhas pintadas.
Quando a noite é avermelhada
é porque vai chover.
Minhas mãos são hoje
um céu preto-noite-pingo.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Quarentena

Tentando unir os fragmentos.
Suspendo a vida nesse momento.
Me pergunto.
Cadê as beiras disso tudo?
Como é que faz pra ir mais fundo?
Não pode ser de outra maneira?
À espera da resposta certeira.
Canso-me.
Puxo uma cadeira.
Me resguardo enquanto
aguardo
um outro mundo.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Pensamento



Quando chove
respinga
o orvalho do verde do céu.

sábado, 8 de março de 2008

Das mulheres de Noel

Três apitos

Primeiro apito,
Restrito.
Segundo apito,
Repito.
Terceiro apito,
Reflito:
O som percorre o infinito,
Nunca encontra você.


Dia da Mulher

Hoje, já que é dia de festa,
Me dou uma brecha
Me permito mudar.
Sendo hoje mais leve,
mais viva, mais breve,
Me entrego ao desejo
Dispenso meu par.
Sem dor e sem culpa
Entorto a conduta
Visto novo papel.
Já que é dia de festa,
Assumo em minhas frestas
Ser mulata
fuzarqueira
de Noel.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Canção de ninar

Saio na frente
e segredo entre a gente:
esse meu eu, sorridente
é canção de ninar.
Compasso sereno
embala de leve
Com o doce da nota
faz que se entregue
E se vai pela porta
deixando pra trás.
Mas cachimbo em criança
pulando perneta
a cuca que pega
boi da cara preta,
como é que se pode
enganar tanta paz?
Na incoerência velada
que faz o meu mundo
Entôo um riso
suave e profundo
E desafino no canto
de um quarto do fundo,
melodia estridente
que faria assustar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Preferenciais

- Não, eu não admito que a senhora me olhe desse modo.
E não que isso agora importe... mas eu gosto mesmo de ficar em pé!
Quem sabe seja algum resto de desejo daquela menina-criança que queria tanto conseguir enxergar mais longe sem ter que machucar as pontas dos dedos.
Talvez alguma esperança da menina-atleta, sempre correndo de um lado para o outro, gastando uma energia que julgava infinita.
Ou ainda, quem sabe, seja apenas um velho hábito de uma menina-moça, que não se permitia ficar sentada enquanto havia tanta coisa a fazer no mundo!
Mas me vendo aqui, desse jeito, eu com minhas roupas justas e essa postura,
A senhora não diria assim... de eu já ter tantas frases no passado... não é mesmo?
Não, eu também não acho isso certo,... com a minha idade!
O que se pode fazer?
Até mesmo a senhora, que nem me conhece, acaba de me lançar aquele olhar!
Vê lá! Eu admito: eu não tenho filhos, nem netos, nem uma casa pra cuidar.
E também nem tenho asma, reumatismos ou algum tipo de artrite.
(O assento é seu, eu não vou contestar!).
Ainda assim, eu tenho essas frases no passado.
E hoje eu estava tão cansada que acabei me sentando.
Veja bem, eu podia me justificar com o fato de que eu não tenho um emprego, nem dinheiro, nem um carro, nem mesmo um namorado... mas eu vou continuar aqui em silêncio, imaginando que no fundo a senhora percebe que não é exatamente nada disso que tem nos deixado, a nós duas, assim, exaustas.
E por que é que a senhora continua fazendo essas caras?!
Sim... eu estou escutando música num volume alto!
É que eu tenho me esforçando bastante pra perder um pouco da audição.
Não, isso não é um pecado! Eu sei que a senhora gostaria muito de escutar como antigamente. Mas acredite. Tem tantas e tantas coisas hoje em dia que seria melhor se a gente não precisasse ouvir...
Tudo bem, eu abaixo um pouquinho. E quem sabe um dia eu até siga o conselho que eu sinto que você está me dando, ainda que eu não escute a sua voz e sua boca não esteja se mexendo para além das caretas.
É que, no fundo, a senhora também sabe que as músicas do seu tempo falam sobre as mesmas coisas do que esses caras que estão aqui gritando, só que com bem menos barulho, não é mesmo?
Olha só, a minha estação é a próxima.
Mas como a senhora já está sentada mesmo, eu vou lhe falar mais algumas surpresas antes de sair, pode ser?
...
É que eu não tenho apenas frases no passado.
...
Eu tenho também essa tristeza e esse cansaço que eu não sei de onde vêm.
Eu aprendi a disfarçar. A senhora também fazia isso quando tinha minha idade, lembra?
Mas é um mal-estar tão grande! E esses olhares como o seu não estão fazendo por ajudar...
E aí eu choro. Muito. Assim. Do nada.
(Talvez se eu me demorasse até o fim desta linha já seria o suficiente).
... Próxima estação: Santa Cruz. Desembarque pelo lado direito do trem.
Bem, não vai ser preciso... Mas já que eu lhe contei tanto, me deixe apenas dizer mais uma coisa.
É que eu também tenho muitos medos. Medo de não ser, de não saber, de ser e não saber, de amar, de não amar, de amar e não ser amada, de não tentar, de tentar sem saber e sem amar.
E eu não quero ser rude... mas eu tenho tanto medo de um dia, já com mais idade, me encontrar andando pelas ruas, assim, como a senhora. E que a tristeza, o cansaço e as frases no passado tenham, de repente, tomado conta de todo o meu corpo, transformando-se em muitas outras dores, como essa da sua coluna.
É que aí eu talvez veja uma menina sentada no assento cinza do metrô. E eu não quero olhá-la como se os meus suspiros fossem os únicos donos de toda a infelicidade do mundo.
Mas que petulância a minha, não é?
A senhora é quem teria tantas coisas para me ensinar!
De fato, se não estivéssemos perdendo tanto tempo com essas expressões tão pouco simpáticas...
Bom, é aqui. A senhora não estranhe. Antes de sair eu vou lhe dar um sorriso.
...
(Sorriso)
...
É, a juventude costuma ser irônica... mas não me leve tão a mal, a senhora já me conhece um pouquinho agora.
É só que meu sorriso acabou de se lembrar que a cor desses assentos preferenciais ainda não é a única diferença entre nós duas.
E aí ele sorriu. Involuntariamente.
Bom. Fica com Deus, tá?! – (última surpresa, eu prometo).
Tenha um bom dia.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Só-letrando...

Sou, no momento só.
Sem sonhos.
Sem sócios.
Sem sono.
E sou no momento, só.

Sou, no momento só.
So-corro.
So-rriso.
So-lícito.
Mas sou no momento, só.

Sou, no momento só.
So-luto,
So-brado,
Soluços somados.
Sou, no momento, só.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Caligrafias

Tamanha a obediência das coisas que me encontro a embaralhar palavras, só pra ver se pode um pouco de desordem! Não que me incomodem indiscutivelmente as regras, mas a que ponto perturbam-me as desnecessidades...
Jamais corrigi-lhes as regências todas, nem dei-me à interferir em suas inconcordâncias.
Com que propriedade vivem agora a assinalar os trechos de minhas ambigüidades?!

Ainda que vivesse a praticar caligrafias, confesso-lhes o fato de nunca ter chegado a ser verdadeiramente linear. E falta mesmo fazem-me hoje as borrachas, que ao menos elas podiam apagar-me!

Tenho andado a esconder as mãos nos bolsos, dissimulando grafites já impregnadas: abaixo das unhas, acima das palmas, adentro da alma.
Quais espantos trariam suas cinzas às páginas em que novamente habito!
Lar de folhas cuidadosamente limpas, impecavelmente, limpas.

(Vai um dia desses tropeço e no susto e na queda deixo um risco, sem querer?
Preto no branco! (admiraria de canto).
Se ao menos o clássico não estivesse démodé...)

Apontam minhas pontas altamente apontadas.
E pelas espetadas gratuitamente distribuídas peço-lhes desculpas, com sinceridade.
Julguem-me ingrata, egoísta, insensata.
Mas... por favor, não mais reduzam os borrões de minhas mãos sujas aos contornos dos carimbos burocráticos, nem continuem a exigir de minhas palavras a exatidão das escritas de forma.
Suspendam-me das advertências, levem-me direto às suas autoridades...(que sim, tenho a elas muitas perguntas)!
E para que bem assine todas as minhas culpas,
deixem-me logo treinar a letra de mão.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Além das Bandeiras

Cansei não apenas do lirismo, mas de toda palavra que hoje se situa entre sua insignificância e seu conceito.
Por nisso falar, cansei da distância entre o homem e a caverna, a teoria e a prática, o pressuposto e o verificável.
Cansei de estar entre a imensidão dos saberes e a incapacidade da apreensão, e do cansaço das dezenas de anos de estudo, cansei de estar entre a titulação e o conhecimento.
Cansei dos pontos médios e denominadores comuns.
Cansei dos elementos básicos, das correntes elétricas, das ondas e do som.
Cansei das preposições e conjunções e de tudo que apenas interliga e transita sem preocupar-se em ser em si.
Cansada estou, não apenas do lirismo, mas da inutilidade das línguas e palavras, dos gestos e expressões que em vão tentam percorrer o caminho entre nossas individualidades.
Cansei, inclusive, da alteridade, da dialética sem síntese, da construção.
Cansei de estar na fronteira entre o dentro e o fora, no limite entre a identidade e o não-pertencimento, no campo de refugiados de si mesmos.
Cansei da esquerda e da direita.
Cansei da reforma e da revolução.
Cansei do certo e do errado e de toda forma de dicotomia e fragmentação que deixa espaço para a angústia do meio-termo.
Cansada estou, não apenas do lirismo, mas de toda forma de comedimento que, ao ser mediano pressupõe extremos e assim instaura a distância entre sonho e realidade.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Um carbono e dois gênios

Faz um calor que, bah!, é difícil suportar!
Calor amorfo, insosso.
Calor pesado, indisposto.
Calor externo e eterno a desfilar sorrisos de verão.
E diz-se na capa de qualquer edição:
“Emissão de carbono eleva temperaturas e castiga a Terra inteira”.
... quando nem mesmo as manchetes estampadas nos olhares me parecem verdadeiras!
Sabe minha tristeza muito mais que a arrogante ciência.
E contrariando toda tendência, afirma com convicção:
O carbono que a grafite exala não polui rios, não destrói a fauna.
É matéria, inclusive, de muito baixa ebulição,
E que ao moldar-se em fio,
Gera um gás tão frio,
Que desaquece a alma.