sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Manifesto Infantil

"A palavra “infância” vem do latim infantìa/ae que significa tanto ainda não falar como infância, o que é novo, novidade; do latim infans/ántis, que não fala, criança. A aquisição da linguagem é, portanto, a passagem do infans, aquele que não fala, para sujeito falante". (IN: A infância e a aquisição de linguagem - Maria Fausta Pereira de Castro)

Crianças do mundo:
comecemos a chorar.
Nasçamos com o grito
do aflito despertar das luzes do parto.
Primeiro constato da frieza do mundo.
Preparo do corpo para o choro profundo.
Choremos segundo e estridente:
fome de leite.
Até que os pais todos estejam presentes.
E o ardido incomode os vizinhos dormentes.
E qualquer reticente, nao vendo outro jeito,
Abra seu peito para nos amamentar.
Enxuguemos as palpebras
apenas por pausa
para digestao.
Depois?
Choremos por pao.
Feijao.
Macarrao.
Sejamos crianças mimadas.
Choremos nas vitrines, nas lojas, nas calçadas
Façamos encontrar as nossas lagrimas
Nas aguas das torneiras
Em que lavam-se as maos.
Choremos de medo da escuridao.
Choremos por falta de educaçao.
Choremos a cada nao.
Choremos o choro doído
por nossos tombos (no patio),
por tantos insultos (na escola).
Choremos até a hora
em que a fala de adultos
nao mais tenha sentido.
Crianças do mundo:
Entreguemos sem medo
os nossos soluços.
Esperneemos a dança
de nossos impulsos.
Façamos bom uso de nossa linguagem
Tanto dita contraria às falas vigentes.
Choremos insolentemente, crianças.
Recuperemos da infancia
a primaria e unica instancia
em que ainda se entendem
todas as gentes.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

(Deixe seu recado)

Caixa:
Postal.
Vocal.
Virtual.

Nada
En-caixa.

Absolutamente
n-i-n-g-u-é-m
Me encontra.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dor-sal

Dores na coluna.
Alma torta torturando
minha espinha.

Dores na coluna.
Peso que me pende
ironicamente
para frente.

Dores na coluna.
Recai sobre a nuca
os fardos que nunca
serao diferentes.

Dores na coluna.
Verso-terapia para alinhar
minhas posturas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

guerra e paz:

homem faz. volta atras. quer mais. dinheiro. veneno. cinzeiro. proibido. poluido. destruido. descartado. reciclado. outra forma. mesma fôrma. mesma gente. de(-)mente. que mente. progresso. perverso. percalço. no bolso. do bobo. de novo. de nada. obrigado. pela força. do habito. da(s) garra(s). amarra-do cabo. de luz. conduz. confere. compara. contorna. retorna. ao mesmo. seu peso. surpreso. de presa.

Re(feiçao)

sejam os olhos vivos.
sejam os olhos vidros.
transparencia das janelas de dentro
interpelando pelas imagens de fora
e das paisagem que surgem do encontro
sejam os olhos ponto
das luzes que refletem furtacor.
sim! furtem os olhos a cor.
desses falsos pintores
de camadas de mao-unica
e distribuam-nas às crianças
nas danças de roda
nas tardes de parque
nos dias de piscina.
sejam os olhos a vitamina
de todos os tipos prescritos
pelos mais famosos doutores
que pretendem aliviar
(do outros) as dores
sem jamais receitar a si mesmos
os nutrientes das boas conversas.
sejam os olhos promessa
sem pressa
parados no ar
paraindo o pensar
nos mais longiquos horizontes.
sejam os olhos as pontes
do invisivel, do intocavel, do inatingivel.
sejam os olhos o fusivel
que acende as luzes do fim.
olhem-me: assim.
sem esse marasmo opaco.
sejam os olhos o prato
em que serve-se quente
a paixao de existir.